Em pleno século XXI, é inconcebível que ainda se recorra à prática de enclausurar aves em espaços públicos sob a justificativa de embelezamento urbano ou lazer. Em Jequié, a reativação de um viveiro em praça pública, algo que já foi parte do passado da cidade, ressurge como uma ideia retrógrada, sem diálogo com os avanços no entendimento ambiental, ético e legal sobre a fauna brasileira.
Historicamente, o antigo viveiro da cidade se transformou em um símbolo de descuido e sofrimento animal. O que se viu ao longo do tempo foram aves doentes, estressadas e desassistidas. Despesas públicas sem retorno real à comunidade, a não ser a perpetuação de um espetáculo de sofrimento travestido de contemplação. Jequié já avançou ao desmobilizar esse tipo de estrutura, uma decisão que, à época, sinalizou maturidade e alinhamento com valores contemporâneos de respeito à vida animal.
Pássaros são, por excelência, o símbolo da liberdade. Nada pode ser mais contraditório do que aprisionar esses animais sob o sol escaldante de Jequié, dentro de viveiros limitados, cercados por caqueiros improvisados, flashes de celulares e o barulho constante de uma praça movimentada. A fauna nativa não pode mais servir como ornamento para administrações públicas que se recusam a dialogar com a comunidade.
De acordo com a Lei nº 9.605/98 (Lei de Crimes Ambientais), manter animais silvestres em cativeiro sem a devida autorização dos órgãos ambientais competentes é crime, passível de multas e até detenção. A iniciativa de exibir aves em espaços públicos requer, no mínimo, estudos técnicos, laudos veterinários, licenças do IBAMA ou do órgão estadual competente e o acompanhamento de profissionais especializados, como biólogos, veterinários e zootecnistas. O improviso, o achismo e o “gosto pessoal” não cabem na gestão de vidas animais.
Se, ainda assim, o município insistir na manutenção de um viveiro, que o faça com total transparência, respeitando os trâmites legais e submetendo o projeto à análise da sociedade civil organizada, universidades, ONGs ambientais e, principalmente, à população. Obras que impactam não só a paisagem urbana, mas também a vida animal e vegetal, não podem ser decididas de forma autocrática. A cidade não é fundo de quintal de governantes, é bem coletivo, e o uso do espaço público precisa ser feito com diálogo e responsabilidade.
Jequié não precisa de mais gaiolas. Precisa de bosques, árvores nativas, áreas verdes onde fauna e flora possam se desenvolver em liberdade. Precisamos de educação ambiental, não de exposições punitivas. Precisamos de áreas de lazer que promovam o encontro harmonioso entre natureza e cidade, e não espaços que reforcem o costume arcaico de aprisionar o que é belo para satisfazer o olhar humano.
Pássaro preso nunca foi sinônimo de paz. E nenhuma cidade que sonha com um futuro sustentável e ético deve permitir que o canto da liberdade seja sufocado por grades e descaso. A beleza das aves está em seu voo. E é isso que Jequié deve proteger: o direito de todos, inclusive dos pássaros, de viver livres.