O modelo adotado pela Prefeitura de Jequié para exploração econômica do São João começou a produzir um debate que ultrapassa a discussão política tradicional sobre festas populares e alcança uma questão mais sensível para a administração pública: qual parcela da riqueza gerada pelo evento está, de fato, retornando ao Município?
A pergunta passou a circular entre profissionais da área contábil, servidores ligados ao controle interno e pessoas que acompanham a evolução financeira do São João nos últimos anos. E ela surge num momento em que a festa deixa de ser apenas um grande evento cultural para assumir dimensão econômica cada vez mais expressiva.
AMPLIAÇÃO DA CONCESSÃO PRIVADA
Os documentos analisados pela reportagem mostram que a Prefeitura ampliou significativamente, para 2026, o alcance da concessão privada sobre áreas estratégicas da festa. A concorrência pública realizada este ano não tratou apenas de estrutura física ou apoio operacional. O que foi concedido à iniciativa privada foi o direito de explorar economicamente os setores mais rentáveis do circuito oficial, especialmente camarotes, bares, restaurantes e patrocínios vinculados ao evento.
A concessão firmada pela gestão municipal prevê exploração da Praça da Bandeira por três anos consecutivos, abrangendo os festejos de 2026, 2027 e 2028. O lance vencedor ficou fixado em R$ 400 mil anuais, totalizando R$ 1,2 milhão durante todo o período contratual.
DISPARIDADE DE VALORES
À primeira vista, o modelo pode parecer semelhante ao utilizado em outros grandes eventos do interior nordestino. O problema começa a aparecer quando os números da exploração privada passam a ser confrontados com os valores destinados ao Município.
Os próprios materiais de comercialização divulgados para o camarote revelam uma operação de elevada capacidade arrecadatória. Os ingressos diários foram anunciados a R$ 250, enquanto o passaporte integral chegou a R$ 1.425. Uma das projeções financeiras anexadas à documentação estima arrecadação superior a R$ 4,6 milhões apenas com a comercialização dos camarotes.
QUESTIONAMENTOS TÉCNICOS E VALUATION
É justamente nesse ponto que a discussão ganha contornos mais técnicos. A questão que passou a ser levantada não é se a Prefeitura poderia ou não conceder o espaço público à iniciativa privada; isso, do ponto de vista jurídico, é perfeitamente possível. O centro da discussão está em outro lugar: a Administração demonstrou, de forma objetiva, que o valor da concessão guarda compatibilidade com o potencial econômico da exploração autorizada?
Até o momento, os documentos disponibilizados não apresentam:
- Estudo detalhado de valuation (estimativa equilibrada) da operação;
- Memória de cálculo da outorga ou metodologia pública de precificação;
- Estimativas oficiais de faturamento;
- Mecanismos claros de participação variável do Município sobre a arrecadação privada.
Na prática, a gestão municipal autorizou a exploração comercial de um dos ambientes mais valiosos da festa sem demonstrar os critérios técnicos utilizados para definir quanto esse ativo público efetivamente vale.
O PAPEL DO INVESTIMENTO PÚBLICO
O ativo explorado não se resume ao espaço físico da Praça da Bandeira. O que a concessionária explora é um ambiente produzido pela própria atuação estatal. O fluxo de consumidores depende da contratação de atrações, mobilização institucional, promoção oficial, infraestrutura urbana, segurança pública e limpeza montada pelo Município.
Em termos econômicos, a atividade privada se beneficia diretamente de um valor de mercado construído com forte participação do poder público. Essa percepção se torna evidente quando o edital de 2026 estabelece que a contratação dos artistas — principal motor de público — continuará sob responsabilidade e financiamento da Prefeitura.
FALTA DE MECANISMOS DE CONTROLE
Técnicos enxergam um possível desequilíbrio: enquanto o custo de formação da atratividade econômica continua vinculado à estrutura estatal, as receitas de maior margem concentram-se na esfera privada. Além disso:
- Não há evidências de mecanismos robustos de auditoria financeira da arrecadação da concessionária.
- Não foram identificadas cláusulas claras sobre participação no faturamento bruto ou compartilhamento proporcional de receitas.
Para profissionais da área, essa ausência reduz a capacidade de aferição da economicidade da operação, dificultando avaliar quanto a concessionária efetivamente lucra a partir do patrimônio público.
CONCLUSÃO DO RELATÓRIO
O São João de Jequié consolidou-se como um dos maiores eventos da Bahia, operando em uma escala financeira que exige maior transparência e controle. Embora não haja elementos para afirmar irregularidade ou dano ao erário até aqui, os documentos levantam uma questão central: a renda produzida está sendo apropriada de maneira proporcional ao investimento realizado pelo Município?
A resposta depende da apresentação dos estudos técnicos que justificaram economicamente o modelo adotado para a exploração de um dos ativos mais valiosos de Jequié.
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