"O escorpião aproximou-se do sapo, que estava à beira do rio. Como não sabia nadar, pediu uma carona para chegar à outra margem. Desconfiado, o sapo respondeu: Ora, escorpião, só se eu fosse tolo demais! Você é traiçoeiro, vai me picar, soltar o veneno, e eu vou morrer. Mesmo assim o escorpião insistiu, com o argumento lógico de que se picasse o sapo ambos morreriam. Com promessas de que poderia ficar tranquilo, o sapo cedeu, acomodou o escorpião em suas costas e começou a nadar. Ao final da travessia, o escorpião cravou seu ferrão mortal no sapo e saltou ileso em terra firme. Atingido pelo veneno e já começando a afundar, o sapo, desesperado, quis saber o porquê de tamanha crueldade. E o escorpião respondeu friamente: Porque essa é a minha natureza!" (Fonte: livro - 'Mentes perigosas - O psicopata mora ao lado', de Ana Beatriz Barbosa Silva).
Em 1997, o MST (Movimento dos Trabalhadores/as Rurais Sem-Terra) realizou a "Marcha Nacional por Reforma Agrária, Emprego e Justiça", que partiu de três pontos diferentes do país e atravessou a pé por dois meses, com destino a Brasília. Seu objetivo manifesto era protestar contra a exclusão social e lembrar o massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido um ano antes, que assassinou 19 trabalhadores rurais e deixou outras dezenas feridas[1].
E assim temos em todo mês de abril ações como mesas-redondas, cozinhas comunitárias, ocupações legais, marchas, feiras livres, atos, enfim, diversas atividades de denúncia da concentração absurda de terra em nosso país, que desagua na fome, na brutal desigualdade social e num ataque violento ao meio ambiente.
Em abril de 2023, como nos outros anos pré-pandemia, o MST vem realizando suas atividades e reivindicando reforma agrária de verdade, seria e estrutural. Isso, pois, o Brasil, segundo o estudo da organização britânica Oxfam, 1% das propriedades rurais concentrando 49% da área rural nacional. Por outro lado, estabelecimentos com menos de 10 hectares representam próximo de 50% do total das propriedades do país, mas ocupam menos de 2,3% da área rural total. Esses pequenos produtores produzem mais de 70% dos alimentos que chegam à mesa do brasileiro, já que as grandes monoculturas exportam a maior parte da produção[2].
Isto, posto, demonstra a necessária e urgente reforma agrária no Brasil. Agora, vamos falar do caso da Ocupação Rosimeire Conceição, em Jaguaquara.
A terra antes denominada Fazenda Jerusalém, abandonada por seus donos há décadas, possui dívida milionária com o Banco do Brasil, além de ter suas únicas utilidades, a extração madeira nativa e de areia. Em 2004, um decreto presidencial foi editado desapropriando a terra, e de lá pra cá, esta não teve função social alguma, como preconizam a Constituição Federal e a Lei 4.504/1964.
Ou seja, se tem 19 anos de desapropriação de terra e mais outras décadas sem utilização alguma da terra, que por lei precisa ter uma função social e ser produtiva.
E é bom que se ressalte que, o MST ocupa terras abandonadas (improdutivas), com dívidas em banco, Receita Federal ou Justiça do Trabalho, ou com utilização de trabalho análogo à escravidão, como preconiza a legislação brasileira. Mas como os grandes meios de comunicação estão nas mãos de quem acha que a terra tem que ser concentrada para gerar lucros para poucos, a sociedade brasileira continua acreditando no conto de fadas como esse: "o MST invadide terra de um senhorzinho que vive dela". Isso não acontece, definitivamente.
Agora, sobre o prefeito de Jequié, Zé Cocá.
Em 2018 soube que integrantes do MST na região tinha fechado apoio ao então candidato a deputado estadual Zé Cocá (PP). Na hora comentei: “saiam dessa, que esse histórico é de traição, conservadorismo, e oportunismo puro e simples.” Não deu outra, quando bem quis colocou seu deputado estadual para assinar uma famigerada CPI para investigar o Movimento e agora envia sua posição para um blog de extrema-direita de Jequié, se colocando contra as ocupações e o movimento que 05 anos antes tinha lhe apoiado, e este usando boné e bandeira na eleição de 2018 (como podem ver nas fotos) e apresentado total concordância com as pautas do MST.

Ou seja, se engana quem quer, pois quem trai uma (prefeito de Lafaiete Coutinho em 2008), duas (Euclides Fernandes em 2017), três (Governo do Estado em 2022), quatro vezes (MST em 2023), esperam 2024 ou 2026 chegar. Mas isso só pega os pragmáticos em excesso, os sem-memória e os ingênuos.
[1] CHAVES, Christine de Alencar. A Marcha Nacional dos Sem-Terra: um estudo sobre a fabricação do social. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000.
[2] Ver mais em: https://www.oxfam.org.br/publicacao/menos-de-1-das-propriedades-agricolas-e-dona-de-quase-metade-da-area-rural-brasileira/