Quando o TV Jequié publicou, no sábado, 28, o artigo “Teatro da Mariposa”, evocando Federico García Lorca para enquadrar o cenário político de Jequié, não havia qualquer traço de neutralidade estética. A dramaturgia não era ornamento, era propósito. O texto já denunciava que o destino da mariposa não seria fruto do acaso, mas consequência direta de escolhas políticas feitas sob luz artificial e interesses cruzados.
A metáfora jamais tratou de voo. Sempre foi sobre queda. A luz que atraía não prometia futuro, oferecia vaidade. E, como quase sempre ocorre na política local, o espetáculo seguia um roteiro conhecido: protagonistas inflados pelo próprio ego, plateia pagando o preço e um final anunciado, em que a tragédia não surpreende — apenas se consuma.
No palco jequieense, a mariposa não decide. Ela é empurrada. E quando finalmente se queima, percebe que nunca foi dona da cena. O teatro sempre pertenceu a quem controla os refletores, escolhe os aplausos e apaga as luzes quando convém.
Foi nesse ambiente já carregado de desconfiança e cálculo político que o pronunciamento do deputado federal Jorge Solla (PT), feito nesta terça‑feira (3), no grupo de WhatsApp Celebridades Políticas, funcionou como estopim. Ao carimbar o prefeito de Jequié, Zé Cocá (PP) — até então alvo de investidas do governador Jerônimo Rodrigues (PT) — como “traidor”, Solla rasgou o véu do diálogo e escancarou uma guerra que vinha sendo disfarçada de negociação. O grupo de WhatsApp que Solla se manifestou, reúne políticos e empresários que conhecem, por dentro, o subsolo da política baiana.
A mensagem não deixou margem para interpretação diplomática. Solla foi direto, duro e público:
“Não precisa do apoio dele. Rui Costa foi quem fez ele deputado estadual, prefeito de Jequié e presidente da UPB. Na primeira oportunidade traiu Rui!”,
Diante da possibilidade de Zé Cocá compor como vice na chapa de ACM Neto (União Brasil), o petista cravou, sem qualquer pudor: “Que ótimo!!!”.
O que era bastidor virou confronto aberto. E a resposta veio no mesmo tom. O vereador de Salvador Cláudio Tinoco (União Brasil) reagiu com ironia venenosa, devolvendo a provocação: “Fico feliz com a sua aprovação ao nome de Zé Cocá!”.
A partir dali, o debate deixou de ser interno e assumiu contornos de disputa pública entre projetos antagônicos.
O choque expôs uma contradição incontornável. Enquanto o governador Jerônimo Rodrigues e o secretário de Relações Institucionais, Adolpho Loyola, vinham se desdobrando para manter Zé Cocá orbitando o campo governista — inclusive tratando seu nome como alternativa real para a vice‑governadoria —, Solla implodiu, em poucas linhas, qualquer verniz de unidade.
Ao declarar que “não precisa do apoio dele”, o deputado não apenas diminui o peso político de Zé Cocá, como não o vê com vultuosa expressão de votos, já que seu declino em Jequié diante do crescimento de sua rejeição, aliada à sua limitada liderança em cidades pequenas, não o configura como indispensável ao projeto Petista da Bahia.
No teatro da política baiana, o script mudou abruptamente. As falas agora são mais duras, os personagens abandonaram a maquiagem e o público assiste, sem intervalo, a um enredo que caminha para o rompimento. A mariposa continua atraída pela luz — mas a chama já não aquece. Queima. E ilumina, para todos verem, quem controla o palco e quem corre o risco de virar cinza antes do último ato.