A implantação do sistema de estacionamento rotativo Zona Azul em Jequié, durante a gestão do prefeito Zé Cocá, continua sendo motivo de críticas entre moradores e também entre cidadãos de municípios vizinhos que se deslocam diariamente para a chamada Cidade Sol em busca de serviços públicos, especialmente na área da saúde, além de compras e atividades comerciais.
Embora o discurso oficial apresente a Zona Azul como instrumento de organização do trânsito e ampliação da rotatividade das vagas, os números da arrecadação revelam que o estacionamento rotativo também se consolidou como uma importante fonte de receita vinculada à exploração econômica do espaço público urbano.
Dados da Superintendência Municipal de Trânsito (Sumtran) indicam que a meta de arrecadação para 2026, referente à participação do município na receita do sistema, foi fixada em R$ 224 mil. No entanto, até o mês de julho, a prefeitura já havia recebido R$ 244.684,74, superando a previsão anual antes mesmo do encerramento do exercício.
Mantido o ritmo atual, a arrecadação municipal poderá alcançar aproximadamente R$ 420 mil até dezembro. O valor corresponde a 10% da receita bruta mensal obtida pela empresa responsável pela operação do sistema, conforme previsto no Edital de Concessão, Item 8.0, Proposta Comercial, subitem 8.7.
A partir desses números, estima-se que a movimentação financeira total da Zona Azul em Jequié possa atingir cerca de R$ 4 milhões por ano. Trata-se de uma atividade altamente rentável, sustentada pela cobrança do uso temporário de vagas localizadas em vias públicas, áreas que pertencem coletivamente à população.
A conta que sempre chega ao cidadão
Mais do que discutir a eficiência do sistema, a crescente arrecadação da Zona Azul suscita um debate relevante sobre o avanço das cobranças incidentes sobre o cotidiano do cidadão. Afinal, além de arcar com impostos municipais, estaduais e federais, o contribuinte passa a pagar também para utilizar, ainda que por curto período, um espaço público cuja manutenção já é financiada pela própria sociedade por meio da carga tributária.
É evidente que a gestão do trânsito exige investimentos e mecanismos de ordenamento urbano. Contudo, quando a arrecadação passa a crescer acima das projeções e se transforma em fonte permanente de receita para o poder público e para a concessionária, surge uma pergunta inevitável: o objetivo principal permanece sendo a organização da mobilidade urbana ou a geração de recursos financeiros?
A percepção de muitos usuários é que o solo público, que deveria servir prioritariamente ao interesse coletivo, vem sendo progressivamente convertido em ativo econômico capaz de produzir receita contínua para os cofres públicos e para a iniciativa privada. Nesse contexto, a vaga de estacionamento deixa de ser apenas um instrumento de mobilidade e passa a representar mais uma cobrança inserida na rotina de quem trabalha, compra, busca atendimento médico ou simplesmente necessita circular pela cidade.
Talvez seja justamente essa sensação de acumulação de encargos sobre o contribuinte que explique o volume de reclamações registradas desde a implantação do sistema. Afinal, para muitos cidadãos, a Zona Azul não simboliza apenas organização do trânsito, mas mais um custo imposto a uma população já submetida a uma elevada carga tributária e ao constante aumento de taxas e tarifas públicas.
Os números da arrecadação mostram que a Zona Azul tem se revelado um negócio financeiramente sustentável. O desafio que permanece é convencer a população de que os benefícios gerados pelo sistema são proporcionais ao valor que diariamente é retirado do bolso dos usuários para ocupar, por algumas horas, um espaço que, em última análise, pertence ao próprio cidadão
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