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Segunda-feira, 05 de Outubro 2026
Notícias/Editorial

QUANDO O CREPÚSCULO COBRA A CONTA

A narrativa de uma mente que viveu as emoções e inquietações do processo político eleitoral

QUANDO O CREPÚSCULO COBRA A CONTA
EA/TVJ
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O fim da tarde chega sem cerimônia. E nós aqui esperando o vento frio da noite.

O sol, que durante meses pareceu um cabo eleitoral silencioso, dourando caminhadas, fotografias e carreatas, agora se esconde atrás do horizonte com a indiferença dos vencedores. A luz morre devagar, como quem não deseja testemunhar o constrangimento da derrota.

Sentados diante de um silêncio que parece maior que qualquer praça lotada, lá vem ela, a noite fria. Daquelas que entram pelas frestas da alma antes mesmo de atravessar as janelas.

Ontem, havia esperança.
Não uma esperança comum, modesta, cautelosa. Havia a certeza quase insolente da vitória. Os cálculos estavam feitos. Os discursos da posse já ensaiavam seus primeiros parágrafos. Os sonhos do governo já ocupavam as conversas reservadas. O futuro cabia inteiro nas mãos e parecia obediente.

Mas a urna tem uma crueldade particular: ela não explica. 
Apenas anuncia.
E anunciou.

Agora, na insônia que se recusa a ter piedade, os olhos permanecem abertos enquanto a madrugada desfila seus fantasmas. Na tela da memória passam, um após outro, os filmes da campanha.

As caminhadas sob o calor.
Os apertos de mão.
Os abraços demorados.
Os beijos distribuídos em rostos desconhecidos.
As promessas sussurradas ao pé do ouvido.
As juras de apoio.
Os incontáveis "estamos juntos".

Tudo reaparece.
Tudo retorna.

Mas agora sob a luz amarga da apuração.
Aqueles abraços, tão calorosos nas fotografias, revelam-se frios na contagem dos votos. Aqueles sorrisos festivos não encontraram correspondência nas urnas. Aqueles compromissos entusiasmados evaporaram no primeiro minuto após o fechamento das seções.

E a multidão...
Ah, a multidão.
Ela parecia um ensaio da glória.
Parecia a materialização do destino.
Parecia o anúncio antecipado de uma vitória acachapante.
Mas a política é uma artista especializada em ilusões. O que parecia um exército revelou-se fumaça. O que parecia futuro transformou-se em lembrança. O que parecia patrimônio político virou apenas uma fotografia destinada aos arquivos das campanhas derrotadas.

E restaram as contas?
As contas financeiras?
As contas morais?
As contas políticas?
Assim seriam débitos que possivelmente chegam antes mesmo do amanhecer seguinte, cobrando o preço de uma aposta que não encontrou recompensa.

Talvez o golpe mais duro não seja a derrota.
Talvez seja o arrependimento.
Aquela sensação amarga de quem deu um salto maior que a prudência permitia.
De quem abandonou um picadeiro onde dominava os movimentos para buscar o palco grandioso das luzes e dos aplausos.
O palco estava iluminado.
O aplauso era esperado.
Mas a cortina caiu antes da estreia.

E agora, no escuro, surge a pergunta que nenhuma pesquisa respondeu e nenhum aliado soube prever: "e se eu tivesse ficado onde estava?"
É uma pergunta inútil.
Mas as derrotas são férteis em perguntas inúteis.

As lágrimas descem sem pedir autorização. Lavando o rosto, mas incapazes de limpar a dor.
A mente procura sentido.
Busca culpados.
Busca atalhos.
Busca explicações.
Busca uma rota para sair do labirinto onde foi colocada pelo veredicto das urnas.

E enquanto isso, o telefone repousa imóvel.
Ontem ele vibrava sem descanso.
Mensagens.
Convites.
Parabéns antecipados.
Pedidos.
Conselhos.
Promessas.
Hoje, o silêncio.

Os mesmos que disputavam espaço na agenda agora disputam distância. Os que diziam "conte comigo para tudo" encontram, de repente, ocupações inadiáveis. A política tem uma forma peculiar de medir amizade: ela a testa quando desaparecem os votos.

Lá fora, a noite finalmente venceu o dia.
Lá dentro, a derrota ainda tenta vencer a esperança.
Mas há uma verdade que o crepúsculo ensina aos derrotados: toda ambição produz sombra quando o sol se põe.
Hoje caminham por essa sombra.

Sozinhos.
Sem aplausos.
Sem multidões.
Sem bandeiras.
Sem o coro dos apoiadores.

Apenas acompanhados pelo eco de uma certeza que morreu cedo demais.

E enquanto a cidade adormece, indiferente ao drama de quem sonhava comandá-la, duas almas permanecem despertas, ouvindo o barulho mais cruel que existe na política:
O silêncio que fica quando a vitória prometida nunca chega.

NOTA DO AUTOR:
"Esta crônica constitui obra de caráter literário e opinativo. Os personagens, situações e reflexões apresentadas integram construção narrativa própria do gênero cronístico, sem pretensão de retratar fielmente pessoas ou acontecimentos específicos."

FONTE/CRÉDITOS: TV Jequié

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Emanoel Andrade

Publicado por:

Emanoel Andrade

Emanoel Andrade é Cinegrafista, Jornalista e Editor não-linear. Já ocupou cargos públicos no setor de Comunicação Institucional, foi Presidente da Associação de Imprensa, Secretário de Comunicação, Diretor de Marketing da CDL/Jequié e Membro Titular...

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