Não são somente os trabalhadores e trabalhadoras da cultura de Jequié que podem afirmar que as ações da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo se concentram apenas no São João de Jequié.
Quem passear pelos demonstrativos de contas públicas da Prefeitura de Jequié, aqueles enviados para o Tribunal de Contas dos Municípios – TCM, por meio do Sistema Integrado de Gestão e Auditoria - SIGA, não vai ter também essa impressão, e sim a certeza de que a Secretaria de Cultura de Jequié não passa de uma Secretaria Municipal do São João de Jequié.
É alarmante e inacreditável que uma Secretaria Municipal, com orçamento anual de mais de R$ 15 milhões, não tenha a capacidade de gerir e fazer executar pequenas ações de gestão ao fomento do turismo local e na manutenção do patrimônio histórico, artístico e arqueológico, por exemplo, somente para citar.
De janeiro até o mês de julho deste ano, o relatório do Tribunal de Contas aponta que R$ 511.000 (quinhentos e onze mil reais), 3,5% do orçamento total, destinados para gestão das ações de fomento ao turismo, subdivididas em premiações culturais, desportivas, artísticas, científicas, por exemplo, não foram investidos sequer R$ 0,01 (um centavo) nessas atividades.
O mesmo caminho do esquecimento e do desprestígio, sem o emprego sequer de R$ 0,01 (um centavo), tiveram as ações comprometidas com a manutenção do patrimônio histórico, artístico e arqueológico. Esses, mais defenestrados ainda, com ações devastadoras como a venda da Biblioteca Municipal, o destombamento da antiga Casa da Cultura, na subida da ladeira da Balança, além da permissão de destruição para fins comerciais da Casa de Lomanto Júnior, um patrimônio histórico de Jequié, que retratava o nobre legado da família Lomanto na história da cidade sol.
Eu até queria encerrar esse meu passeio pelas ruínas da Cultura de Jequié sem falar do Teatro Municipal, para evitar as náuseas. Mas o nó na garganta que me traz de volta o soluço inquietante, que reluta em cessar ao ver entregue aos cupins e às traças, um formidável berço cultural, um patrimônio singular, sem igual pela sua beleza e imponência, abandonado como prova da incompetência administrativa que impede devolver aos artistas locais e da Bahia o que é deles por direito.
Por fim: quem não gosta de forró com gente de fora pode esquecer os gingados da capoeira, as cores dos tricôs, as tranças e contornos do artesanato, as vibrações das cordas, o repique das baquetas, as sapatilhas, o bumba-meu-boi, os rostos pintados dos palhaços, as expressões cênicas, os cantos e encantos das músicas, os pincéis e suas molduras e telas... Esqueçam tudo... Tem recursos... Mas não tem amor pela arte e pela cultura, nem tão pouco a vontade política e pessoal de fazer, de apenas fazer, tão pouco assim!
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