Dinheiro jogado pela janela, contratos superfaturados, envolvimento de prefeitos baianos, porte ilegal de armas e o desvio de mais de R$ 1,4 bilhão proveniente de emendas parlamentares. "Parece até clichê de filme americano", como diria o capitão Nascimento — interpretado pelo ator baiano Wagner Moura, em Tropa de Elite 2 —, mas é a realidade investigada pela Operação Overclean, deflagrada pela Polícia Federal (PF) em colaboração com a Controladoria-Geral da União (CGU).
A investigação tem como alvo uma organização criminosa que capitaneava fraudes licitatórias, desvio de recursos públicos, corrupção e lavagem de dinheiro no estado da Bahia, respingando também em São Paulo, Minas Gerais e Distrito Federal, dentre outros.
Com políticos, empresários e servidores baianos no centro de toda a ação, a BNews Premium deste domingo (6) traça uma linha do tempo da Operação Overclean iniciada ainda em 2024, que conta com o apoio, além da CGU, do Ministério Público Federal (MPF) e da Receita Federal, possuindo desdobramentos até hoje.

MARCO ZERO
Primeira fase: 42 mandados de busca e apreensão; 17 mandados de prisão preventiva (16 executados, um não localizado)
Durante a primeira fase, deflagrada no dia 10 de dezembro de 2024, a PF havia descoberto que cerca de R$ 1,4 bilhão em recursos públicos federais foram desviados desde 2017 através de contratos firmados com o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs), utilizando empresas de fachada e laranjas para movimentar as cifras.
Rapidamente a PF rastreou o dinheiro até o empresário Marcos Moura, conhecido como "Rei do Lixo" — nome forte com bastante influência dentro do União Brasil —, que foi preso. Apontados como líderes do esquema criminoso, Marcos Moura e Lucas Maciel Lobão, ex-coordenador do Dnocs na Bahia, foram acusados de financiar e coordenar uma rede ilícita envolvendo corrupção e fraudes em licitações.

Nesta fase, os crimes investigados foram corrupção, fraude em licitação, peculato e lavagem de dinheiro. Mas o início da queda do "castelo de cartas" não parou por aí. Ainda na primeira fase, um "coadjuvante" decidiu roubar a cena. Estamos falando de Francisco Manoel do Nascimento Neto, conhecido como Francisquinho Nascimento (União Brasil) — primo do deputado federal Elmar Nascimento (União Brasil).
O vereador eleito de Campo Formoso, no Centro-norte baiano, Francisquinho entrou na mira da Overclean e, ao tentar fugir dos federais, jogou uma sacola com R$ 220 mil pela janela de um apartamento no dia em que foi preso.
Além disso, a PF descobriu indícios de ocultação de provas, uma vez que houve trocas de mensagens dele com outros envolvidos e documentos eletrônicos apagados.

Outra peça do tabuleiro identificada pela investigação foi Flávio Henrique de Lacerda Pimenta, ex-diretor da Secretaria Municipal de Educação (Smed) de Salvador, que foi preso por fornecer informações privilegiadas à organização criminosa. Durante a prisão, a PF teria apreendido R$ 700 mil em espécie na residência do servidor na capital baiana.
Segunda fase: Dez mandados de busca e apreensão; quatro mandados de prisão preventiva; uma ordem de afastamento cautelar (servidor da PF)
Na segunda fase, deflagrada em menos de duas semanas depois, no dia 23 de dezembro, surgiram novos "protagonistas". Fundamental para a articulação do esquema, o vice-prefeito de Lauro de Freitas, Vidigal Galvão Cafezeiro Neto (Republicanos) — historicamente ligado ao PT — foi apontado como facilitador interno da trama, além de estar envolvido no recebimento de propina e lavagem de dinheiro.
Além dele, em consonância com o esquema, o Secretário de Mobilidade de Vitória da Conquista, e ex-chefe de gabinete, Lucas Dias, também foi alvo da segunda fase da Overclean. Ele recebia valores para facilitar a articulação de contratos com a organização, de acordo com a investigação.
Terceira fase: 16 mandados de busca e apreensão; uma ordem de afastamento cautelar (servidor público)
Durante a terceira fase da Operação Overclean, iniciada no dia 3 de abril de 2025, foram realizadas várias ações em Salvador, Belo Horizonte, São Paulo e Aracaju. Nessa etapa, o envolvimento da família Nascimento ficou ainda mais claro quando o irmão de Francisquinho, o prefeito de Campo Formoso, Elmo Aluizio Vieira Nascimento (União Brasil), se tornou suspeito de favorecer contratos dentro do esquema.
A investigação também atingiu o deputado federal Elmar Nascimento (União Brasil). Conforme decisão do ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou a terceira fase da Operação Overclean, o parlamentar passou a ser alvo da Polícia Federal devido à destinação de emendas parlamentares para um convênio firmado com a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba (Codevasf).
A decisão destaca que, segundo a PF, a análise de dados obtidos em celulares apreendidos revelou encontros entre o Elmo Nascimento, um superintendente da Codevasf — supostamente indicado por Elmar — e um representante da empresa que acabou vencendo a licitação sob suspeita no município.
A PF afirma ter identificado que os recursos utilizados na contratação tinham como origem emendas parlamentares indicadas por Elmar e, posteriormente, liberadas. Além disso, os investigadores apuraram que o superintendente da autarquia foi nomeado para o cargo por indicação direta do deputado. Ademais, foi justamente a citação ao nome de Elmar Nascimento que levou o caso a subir da primeira instância da Justiça Federal para o STF.

E lá na capital mineira, um velho conhecido dos soteropolitanos virou alvo: o ex-secretário de Educação de Salvador, Bruno Barral — nomeado durante a gestão de ACM Neto. À época, Barral era secretário de Educação de Belo Horizonte. A Polícia Federal encontrou na casa dele, dinheiro vivo, joias e relógios em um cofre.
O total apreendido foi no valor de R$ 120,8 mil. Na lista da apreensão estão dinheiro vivo (11,5 mil dólares, 7 mil euros e R$ 7 mil), um relógio de luxo, uma corrente de ouro, um carro Corolla, pen drives e aparelhos telefônicos.
Nova etapa
Com 16 mandados de busca e apreensão e três ordens de afastamento cautelar de servidores públicos, a quarta fase da Operação Overclean teve início no último dia 27 de junho — e dessa vez, a esquerda surgiu nos holofotes da operação. Os prefeitos de Ibipitanga, Humberto Raimundo Rodrigues de Oliveira (PT), e de Boquira, Alan Machado (PSB), foram afastados por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF).
Além disso, ainda houve a quebra de sigilo de assessores do deputado federal Félix Mendonça Júnior (PDT–BA) — presidente estadual da sigla que se aliou recentemente ao governo Jerônimo Rodrigues (PT) — e a descoberta de cartas marcadas em licitações e propinas entregues em espécie. Além deles, o ex-prefeito de Paratinga (PT), Marcel Carvalho, foi encontrado com mais de R$ 3 milhões em sua casa.
Bahia no centro da investigação
No geral, entre dezembro de 2024 e junho de 2025 foram 130 mandados de busca e apreensão e 40 investigados com foro privilegiado. Com mais de sete estados como alvo, até o momento, na Bahia, já entraram na mira municípios como Salvador, Camaçari, Paratinga, Boquira, Ibipitanga, Jequié, Itapetinga, Santa Cruz da Vitória e Lauro de Freitas.
De acordo com a PF, para realizar as fraudes os envolvidos agiram de forma padronizada, por meio de superfaturamento de obras e serviços, emissão de notas fiscais falsas, pagamento de propina a agentes públicos e uso de laranjas e empresas de fachada para lavar o dinheiro. Boa parte dos contratos analisados envolvia recursos oriundos de emendas parlamentares federais, com intermediação de políticos e prefeitos do interior baiano.
Confira o nome de todos os presos e suas respectivas funções dentro da organização criminosa:
- Alex Rezende Parente - Empresário
- Fábio Rezende Parente - Empresário
- Lucas Maciel Lobão Vieira - Ex-Coordenador Estadual do Dnocs na Bahia
- Clebson Cruz de Oliveira - Ex-sócio de Fábio Rezende Parente nas empresas Allpha Pavimentações e Serviços de Construções Ltda., Qualymulti Serviços Eireli e Olgarena Comercial Ltda., foi funcionário da Larclean Saúde Ambiental Ltda. E de filial da P.A.P. Saúde Ambiental (empresa que teve como sócio administrador e responsável Pedro Alexandre Parente Júnior, pai dos irmãos investigados).
- José Marcos de Moura - Empresário "Rei do Lixo"
- Fábio Netto do Espírito Santo - Apontado pela PF como atuante no Município de Senador Canedo/GO.
- Flávio Henrique de Lacerda Pimenta - Servidor na Secretaria Municipal de Educação
- Orlando Santos Ribeiro - Atuava no Município de Itapetinga/BA.
- Francisco Manoel do Nascimento Neto - Atuava no Município de Campo Formoso/BA.
- Kaliane Lomanto Bastos - Coordenadora de Projetos, Execução e Controle na Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente da municipalidade, como integrante da organização que atua no município de Jequié/BA.
- Claudinei Aparecido Quaresemin - Braço da organização criminosa no Tocantins.
- Itallo Moreira de Almeida - Braço da organização criminosa no Tocantins.
- Evandro Baldino do Nascimento - Empresário de Goiás do ramo da construção, atua fornecendo sustento logístico e operacional à ORCRIM, ocupando uma posição estratégica, embora não ocupe posição de liderança, promove ações que fortalecem a estrutura da organização criminosa, contribuindo para a manutenção de suas atividades ilícitas.
- Geraldo Guedes de Santana Filho - sócio da A G&M AGÊNCIA DE TURISMO E ORGANIZADORA, DE EVENTOS LTDA (FOCCUS PRODUCOES) e atua como uma espécie de funcionário de ALEX PARENTE, “executando funções de contabilidade, secretariado, além de tratativas diretas com agentes do setor público envolvidas nos contratos firmados com a LARCLEAN.
- Diego Queiroz Rodrigues - Atuava no Município de Itapetinga/BA.
- Ailton Figueiredo Souza Junior - Braço operacional do grupo criminoso em Lauro de Freitas/BA.
- Iuri dos Santos Bezerra - Braço da organização criminosa que atuava no Dnocs, na Coordenadoria Estadual na Bahia (CEST-BA).
Em liberdade
Apesar do desvio de R$ 1,4 bilhão e das evidentes violações legais, os investigados na Operação Overclean foram libertados poucos dias após suas prisões.
Nove dias após serem detidos, o ex-coordenador estadual do Dnocs, Lucas Lobão; o empresário Marcos Moura, o "Rei do Lixo"; o vereador eleito de Campo Formoso, Francisco Nascimento, e outras 13 pessoas foram soltas ainda na primeira fase da investigação.
Lista completa dos soltos na primeira fase da investigação:
- Alex Rezende Parente: empresário
- Fábio Rezende Parente: empresário
- Flávio Henrique Pimenta: servidor público
- Clebson Cruz de Oliveira
- Fábio Netto do Espírito Santo
- Orlando Santos Ribeiro
- Kaliane Lomanto Bastos
- Claudinei Aparecido Quaresemin
- Evandro Baldino do Nascimento
- Geraldo Guedes de Santana Filho
- Diego Queiroz Rodrigues
- Ailton Figueiredo Souza Junior
- Iuri dos Santos Bezerra
- Vidigal Cafezeiro Neto
Sem perder tempo, no mês seguinte à soltura, em maio deste ano, o vereador Francisco Nascimento foi registrado aproveitando uma festa com amigos. Mas, diferente do comum, o item em destaque não foi o copo, e sim a tornozeleira usada pelo parlamentar. O acessório, junto aos óculos escuros e à roupa despojada, compôs as vestes do vereador.
Recentemente, na quarta fase da operação, também foram presos e rapidamente liberados, após pagar fiança, os prefeitos alvos Humberto Rodrigues (PT) e Alan França (PSB). Durante a prisão, eles foram flagrados com armas e autuados por porte ilegal durante o cumprimento de mandados de busca e apreensão expedidos pelo STF. É na Suprema Corte que são autorizados os próximos passos e capítulos de uma operação que aparenta estar longe de ter fim.
Com informações: BNews: Bruna Rocha e Thiago Teixeira
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