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Domingo, 15 de Fevereiro de 2026

Bahia/Opinião

QUEM PODE (OU PODERIA) SER CHAMADO DE SECRETÁRIO?

Ainda há tempo de virar o jogo, mas é preciso coragem para encarar de frente a verdade: quem está ocupando as cadeiras do poder, e com quais propósitos?

QUEM PODE (OU PODERIA) SER CHAMADO DE SECRETÁRIO?
Editorial de Arte/TV Jequié
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Quem pode ser chamado de secretário?

No cenário político brasileiro, há um vício institucionalizado que, mesmo sendo velho conhecido da população, continua passando despercebido por muitos: a nomeação de secretários municipais sem qualquer critério técnico. Em vez de se priorizar competência, experiência ou preparo, o que define quem senta na cadeira do secretariado é o laço — e não o laço de gravata, mas o laço de parentesco, amizade ou conveniência política.

A prática do apadrinhamento é uma ferida aberta nas gestões públicas. Secretários são escolhidos como peças num tabuleiro de xadrez onde o xeque-mate nunca é contra o rei, mas sempre contra o povo. Entram sem preparo, sem conhecimento técnico, sem histórico na área. Entram por indicação — e com sorte, saem pela porta dos fundos quando a incompetência começa a ficar difícil de maquiar. Só que, até lá, o estrago já foi feito.

As pastas municipais, que deveriam ser tratadas com seriedade e responsabilidade, viram palcos de vaidades e experimentações. Como pode alguém sem nenhuma formação na área da saúde ser responsável por gerir um sistema que cuida da vida de milhares? E, no caso do esporte, como confiar a promoção da prática esportiva, da inclusão e da cidadania a quem jamais participou de um torneio de bairro, nunca jogou um baba na comunidade, e sequer conhece a realidade das quadras e campos da periferia? O esporte, que transforma, educa e salva vidas, vira apenas uma linha burocrática na folha de pagamento de quem sempre viveu distante das arquibancadas e do suor coletivo.

Por vezes, o que se vê são figuras que, após não conseguirem se manter pelo voto, se reaproximam do poder buscando estabilidade em cargos que nada têm a ver com sua trajetória. Gente que já mudou de camisa mais de uma vez, sem qualquer pudor ideológico, apenas pelo apetite de permanecer em cena. O resultado? Uma pasta acéfala, travada, onde o esporte deixa de ser política pública para virar moeda de troca em jogos de bastidores.

Não é apenas uma questão de competência: é uma questão de respeito. Respeito à cidade, ao povo, aos profissionais que estudaram, que batalharam, que se qualificaram. Quando um cargo público é usado para acomodar interesses pessoais, há um duplo crime: contra a democracia e contra o mérito.

Embora a nomeação de secretários municipais seja uma prerrogativa do prefeito, essa escolha deve observar os princípios da administração pública, como legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência, conforme previsto no artigo 37 da Constituição Federal. A nomeação de pessoas sem preparo técnico, sem experiência ou qualquer vínculo com a área de atuação, fere diretamente o princípio da eficiência — e transforma o que deveria ser gestão pública em gestão de favores. Quando a política se descola da competência, o interesse público é o primeiro a sangrar.

A cidade vira palco de improvisações irresponsáveis, onde os secretários aprendem no cargo, enquanto a população paga a conta dos erros.

É preciso perguntar: quais são os critérios reais que têm sido adotados em Jequié para nomeação dos secretários municipais? Será que temos nas pastas pessoas com a real capacidade de planejar, executar e gerir políticas públicas? Ou estamos assistindo — calados — à ocupação de cargos por "autoridades bigodais" que se comportam como coronéis modernos, impondo sua vontade em áreas que desconhecem completamente?

A sensação é de que se perdeu o pudor. Em tempos de tantos escândalos, a velha política se camufla com discursos de modernidade, mas continua operando da mesma forma: entregando cargos como brindes eleitorais, como moeda de troca, como favores. E o povo, esse mesmo povo que trabalha, que espera por políticas públicas eficientes, continua sendo o grande prejudicado.

É hora de perguntar, de cobrar, de se incomodar. Porque o silêncio é cúmplice da destruição. E quando a cidade for só cimento e promessa, sem saúde, sem cultura, sem educação — ou sem esporte —, será tarde demais para se indignar. Ainda há tempo de virar o jogo, mas é preciso coragem para encarar de frente a verdade: quem está ocupando as cadeiras do poder, e com quais propósitos?

Porque uma cadeira de secretário não é uma homenagem, não é um prêmio, e nem pode ser um puxadinho de gabinete. É uma responsabilidade. E quem não tem preparo, que fique de fora. A cidade não pode mais ser laboratório de vaidades nem palanque de incompetentes.

FONTE/CRÉDITOS: TV Jequié
Comentários:
Israel Ferssant

Publicado por:

Israel Ferssant

Israel Ferssant é Teólogo, Cineasta, Jornalista, com MBA em Comunicação Eleitoral e Marketing Político, Pós-graduando em Serviço Social, às vezes poeta, músico, educador.

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