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Sábado, 18 de Abril 2026

Notícias/Opinião

PÃO, CIRCO E DRONES: A CULTURA AMEAÇADA PELAS LUZES DE LED

Quem foi pra rua dançou. Quem esperou cultura, dançou. Quem ficou em casa, dançou. Até os drones dançaram na cara da gente.

PÃO, CIRCO E DRONES: A CULTURA AMEAÇADA PELAS LUZES DE LED
Arte/ETJ
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Jequié parece ter firmado contrato com o esquecimento. E não falo de uma amnésia poética, dessas que nos libertam do passado para inventarmos futuros. É uma amnésia programada, dirigida, cuidadosamente produzida por uma gestão que tem se especializado em transformar a cidade num grande picadeiro. Vivemos tempos de "pão e circo”, com pouco pão e muito espetáculo.

SÃO JOÃO NADA. É SHOW SOMENTE.

No São João deste ano, por exemplo, tivemos drones no céu e DJ no palco. Tudo muito moderno, tudo muito caro, tudo muito fora do lugar. Os sertanejos cantaram seus hinos de sofrência, álcool, traições e mortes — como se isso fosse o retrato da alma nordestina.

E foi aí, entre uma bebida e outra, que o nome de Jequié ganhou os holofotes da mídia nacional. Não por um feito cultural, nem por um resgate histórico, tampouco por um avanço na educação ou na saúde pública. Mas por uma confusão entre o prefeito e uma menina, cantora de vinte e poucos anos, Ana Castela, que, mesmo não compondo para o público infantil, arrasta legiões de crianças aos seus shows.

Segundo ela, o prefeito teria prometido um encontro com “todo mundo” após o show, algo que ela mesma desmentiu nas redes sociais. A tragicomédia se desenrolou em público. E embora a cena tenha arrancado risos do país, por aqui, não teve graça alguma. Porque é o retrato do improviso institucionalizado, da vaidade acima do planejamento, da propaganda acima do conteúdo.

E aquela coletiva estranha feita ali pela primeira vez? E aquela virada de chave para falar da Artista? E aqueles convidados escolhidos a dedo e a imprensa paga que reza na cartilha?

XÔ GALERA. A PRAÇA TEM DONO.

Voltando à praça, enquanto os drones subiam, a cultura descia e era enterrada na lama fétida da esculhambação. Os raladores da arte, que rala o ano inteiro, foram excluídos do circuito da festa e colocado para tocar para as almas forrozeiras. Quem papelão absurdo.

SHOW RELÂMPAGO

E os artistas da terra? Os cantores, os grupos de teatro, os poetas, os mestres da tradição popular? Aqueles que poderiam, e deveriam, ser protagonistas de um São João com cara de Jequié? Foram lembrados ou apenas tolerados?

Um exemplo gritante foi o do veterano Rosy e Banda, artista com quase 40 anos de carreira, com carnavais em Salvador e trajetória consolidada, que carrega com dignidade o nome de Jequié por onde passa. Sua participação no São João deste ano foi tão breve quanto simbólica: um tempo insuficiente, 20 minutos de show e nada mais. Quase um tapa de luva na memória coletiva. O público, que sempre o prestigia, não escondeu o descontentamento. E como esconder? Não há drone que encubra o constrangimento de ver um gigante sendo tratado como figurante e dispensado para aquele de contrato infinitamente superior, turbinado pelo seu empresário.

CASA DA CULTURA

A Casa da Cultura segue fechada. Os projetos culturais nos bairros desapareceram. O espaço cultural foi cedido para uma associação paradesportiva (nada contra o paradesporto, tudo contra o abandono da cultura). O que deveria ser investimento em memória virou tapete para a poeira do esquecimento.

Com um curso superior de Teatro na própria cidade, teríamos todas as ferramentas para fazer do São João um momento de resgate cultural, de afirmação de identidade. Mas parece que cultura aqui virou decoração de festa, entra quando convém, sai quando custa.

A pergunta que fica, e que precisamos fazer antes que mais um drone nos distraia, é: para onde estamos indo? Que cidade vão deixar para a gente quando as luzes coloridas se apagarem? Que cultura sobreviverá à gestão de Zé Coca?

Ou melhor: o que sobrará de Jequié quando o circo for desmontado?

FONTE/CRÉDITOS: TV Jequié
Israel Ferssant

Publicado por:

Israel Ferssant

Israel Ferssant é Teólogo, Cineasta, Jornalista, com MBA em Comunicação Eleitoral e Marketing Político, Pós-graduando em Serviço Social, às vezes poeta, músico, educador.

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