O vice-prefeito não responde automaticamente pelos atos exclusivos do prefeito. No serviço público, a responsabilidade é pessoal e deve alcançar quem efetivamente praticou, determinou ou concorreu para determinado ato.
Essa distinção, porém, ganha outro significado quando o vice deixa a condição de coadjuvante e assume a cadeira principal.
Desde 2 de abril, Flávio Santana, sobrinho do ex-prefeito de Jequié, passou a conduzir os destinos do município. E, a partir daí, começou também a escrever a sua própria história.
A vida pública é feita de escolhas — e são justamente as escolhas que, ao final, definem uma trajetória. Para quem assume o comando de uma prefeitura, cada decisão exige atenção redobrada. Há implicações jurídicas, políticas, administrativas e pessoais. Há o dever de cuidar do dinheiro público, a cobrança da população, a exposição permanente e, sobretudo, a responsabilidade por aquilo que se assina, autoriza e permite.
Flávio é engenheiro de formação e construiu sua vida profissional fora da política. Esse patrimônio talvez seja um dos bens mais importantes que leva consigo para o exercício do cargo: uma trajetória profissional que existia antes da Prefeitura e que continuará existindo depois dela.
Por isso, governar exige mais do que administrar. Exige saber dizer “não”, inclusive quando o “sim” parecer politicamente mais conveniente.
Afastar práticas equivocadas, examinar com rigor as decisões que envolvem o erário, cercar-se de pessoas tecnicamente capazes e confiáveis, preservar a transparência e compreender exatamente o alcance de cada ato são cuidados indispensáveis para quem pretende atravessar a vida pública preservando aquilo que dinheiro e poder algum conseguem recompor facilmente: o próprio nome.
Flávio tem diante de si a oportunidade de construir uma gestão com identidade própria. Não precisa repetir fórmulas, herdar métodos nem assumir como naturais práticas simplesmente porque já faziam parte da rotina administrativa. O que funcionou pode ser aperfeiçoado. O que estiver errado precisa ser corrigido. E aquilo que não resistir ao exame da legalidade, da moralidade e do interesse público deve ser deixado para trás.
A política brasileira está repleta de trajetórias promissoras que se perderam quando a prudência cedeu espaço à conveniência, quando relações pessoais se confundiram com decisões públicas ou quando determinados arranjos passaram a parecer normais apenas porque sempre foram feitos assim.
É justamente aí que mora a oportunidade de Flávio Santana: fazer diferente quando for necessário fazer diferente.
Se acertar, poderá deixar sua marca em Jequié pelo mérito de suas próprias decisões. Se errar, também responderá pelas escolhas que fizer daqui em diante. O tempo de ser apenas vice ficou para trás.
Agora, a caneta é sua. E, junto com ela, a responsabilidade também.
No fim das contas, Flávio dependerá muito de Flávio.
Porque, na vida pública, mandato passa, cargo termina e grupos políticos mudam. Mas há algo que acompanha cada gestor quando as portas do gabinete se fecham: o próprio nome.
E é o CPF de quem assina que permanece na régua.
Por Emanoel Andrade
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