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Segunda-feira, 13 de Julho 2026
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Notícias/Opinião

A CRISE DA FALTA DE ESPAÇO NO CEMITÉRIO DE IPIAÚ

Falta de covas em cemitérios contrasta com a cultura de praça lotada em shows populares caríssimos

A CRISE DA FALTA DE ESPAÇO NO CEMITÉRIO DE IPIAÚ
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Nesta edição, o urbanista arquiteto Elson Andrade, nos traz uma visão crítica do problema, numa perspectiva antropológica, sobre a crônica falta de vagas nos cemitérios de Ipiaú, em meio a uma pergunta: o que de fato vem a ser Cultura, para as prefeituras da região? E por fim, vem a público propor a construção de um crematório intermunicipal, compartilhado, microrregional?

Uma leitura antropológica do descompasso entre a pobre gestão da morte e a rica economia dos festejos no interior da Bahia

Há uma frase que atravessa boa parte da antropologia da morte, de Robert Hertz a Philippe Ariès: historicamente, nenhuma sociedade humana respeitada, deixa seus mortos sem lugar e sagração. Antes de templos, antes de praças, antes mesmo de muralhas, o que funda um povo como povo – e não como simples massa cadavérica desagregada de indivíduos de passagem mortal por este mundo, é pois, o gesto de reservar um pedaço de chão pacífico comum para enterrar quem se foi, o famoso descansa em Paz.

O cemitério é mais do que um espaço físico: ele é a metáfora concreta da finitude e da continuidade. Não se trata de um buraco aberto a esmo, num canto qualquer da cidade, mas de um território simbólico onde a comunidade reconhece sua sacralidade, e reza em silêncio, que a morte não é apenas ausência, mas também presença, e, presença de memória, de história, de vínculos, de exemplo a ser deixado, que não se desfazem. Enterrar os mortos é afirmar que a vida não se encerra no instante da morte, mas se prolonga na lembrança que a cidade guarda dos seus filhos.

Quando falta esse chão pacífico, não é apenas o corpo que fica sem “repouso”; é a própria comunidade que perde a possibilidade de se reconciliar com o sentido da vida, do tempo; de deixar uma pequena anotação inscrita como lembrança de sua história-passagem na terra, e, de dizer, com dignidade, que cada existência importa.

Foi assim nas necrópoles neolíticas, nos túmulos coletivos que precedem qualquer registro escrito de organização política. Foi assim nas cidades-estado da Antiguidade, onde o direito à sepultura era, simultaneamente, direito de cidadania – não à toa Antígona desafia o rei de Tebas justamente para poder enterrar o irmão. E foi assim na formação do Estado Moderno, quando o controle sobre os cemitérios – antes eclesiástico, depois municipal – tornou-se um dos primeiros gestos de secularização no exercício do poder público: administrar a morte dos súditos, ou dos cidadãos, é um dos modos mais elementares pelos quais um Estado (administração pública) afirma que aquele território e aquela população lhe pertencem, e que ele responde por eles até o eterno, como cultura e sacralidade dum povo.

A Mortes da Verdadeira Cultura: Quando a Falta de Vagas em Cemitérios Contrasta com Cachês Milionários em Shows Passageiros

Gestor público que não respeita seus mortos, aos olhos de Deus, não merece estar vivo”, disse um senhor revoltado no episódio do caso recente da falta de vagas num cemitério de Ipiaú, em que tiveram que tirar da boca da cova um defunto e levar para ser enterrado em algodão (distrito da vizinha Ibirataia-BA). E questionou: “uma pessoa passar uma noite em pé, no relento, entrar na madrugada, no apertado, praça lotada, no empurra-empurra, com a prefeitura pagando R$ 690 mil para Pablo tratar do endeusamento do sentimento de traição amorosa… e como se não bastasse, ainda suplementar a madrugado com mais outro show surpresa do Nattan de R$ 950 mil; podemos chamar isso, e, respeitar, como se fosse cultura? Em que mundo estamos? Cadê a sanidade mental das almas ainda vivas, dessa cidade?”

Dado a repercussão nas redes sociais, irado, um músico roqueiro, conhecedor da realidade local, atualmente morador de SP, teria postado: “Este é um retrato de como os donos do circo já tenham conseguido domesticar opresos, a ponto de muitos enxergarem motivo de beleza e adoração a própria jaula.”

Michel Foucault chamaria o cemitério de heterotopia: um espaço que existe dentro da cidade, mas que obedece a uma lógica própria, ligada não à vida cotidiana, mas à memória, à continuidade e à identidade coletiva, equiparado ao sagrado. É por isso que a falta de vaga num cemitério nunca é apenas um problema logístico.

É um sintoma. Trata-se do respeito pela nossa existência e como é exercido o poder terreno. Quando uma cidade não consegue mais garantir a seus mortos um lugar, o que está em crise não é só um terreno: é o próprio pacto simbólico entre o poder público e a comunidade que ele administra. Ao que parece, quem morreu e ainda padece para ser enterrado, é pois, um retrato do modus operandi da gestão pública, apoiada num sistema podre, decadente, via sistema eleitoral, baseado no populismo de compadrios, e clientelismo descarado. Enquanto uns, chegam a comprar jatinhos com recursos oriundos do poder público, desviados das suas funções básicas, outros, tem que procurar outra cidade, às pressas, para enterrar seus entes queridos vergonhosamente. Fato a ser registrado na história político administrativa, oficial de Ipiaú-BA.

Aqui no Brasil a afirmação do Estado Nacional, tomou da igreja católica a função de registro de nascimento e sepultamento, justamente para se posicionar como uma força social e política.

O caso de um cidadão de Ipiaú ser enterrado em algodão (distrito de Ibirataia)

O cidadão comum ao ter acesso aos dados de que cerca de 400 enterros acontecem em Ipiaú, todo ano, a pergunta que fica é: Onde está a surpresa acerca da demanda de vagas nos nossos cemitérios? Seria desleixo ou prioridade?

É nesse quadro que ganha peso a notícia, de que os cemitérios municipais de Ipiaú estariam há anos enfrentando esgotamento de vagas. Os dados oficiais de óbitos por local de residência do falecido ajudam a dimensionar a pressão sobre a estrutura funerária da cidade: em 2024, Ipiaú registrou 391 óbitos, contra 152 em Ibirataia e 168 em Ubatã – municípios vizinhos e de porte populacional próximo. A série histórica mostra uma curva de crescimento quase contínua desde 2008, quando o número de óbitos em Ipiaú girava em torno de 300 por ano, até os patamares atuais, sempre acima de 350 e frequentemente próximos de 390. Ou seja, não se trata de um número aleatório. É, pois, caso de estatística pública. Já “sabemos” hoje, que nos próximos dez anos, teremos que ter cerca de cinco mil vagas nos cemitérios de Ipiaú. O planejamento e a burocracia pública, existem justamente para dar conta de soluções desta monta.

E por que não dá? Seria questão de eleição de prioridade? De passar o carro na frente dos bois, ao privilegiar oba-oba de governos e não ações e políticas públicas perenes de Estado?

Um cenário de abandono e falta de crescimento assim, sustentado ao longo de mais de quinze anos, não é imprevisível. É exatamente o tipo de tendência que qualquer planejamento urbano minimamente responsável deveria ter antecipado: mais habitantes idosos, mais óbitos, e, portanto, mais necessidade de área de sepultamento, de ampliação ou de um novo cemitério. Inclusive, com projeto previamente aprovado, no devido órgão ambiental (base legal nacional – Resolução CONAMA nº 335/03).

Quando essa antecipação não acontece, o resultado é o que se vê: famílias em luto tendo que apelar por intermediação de vereadores (clientelismo sistêmico – clássico modus operandi da nossa região), esperar ou improvisar, tendo que enterrar um parente em outra cidade, num momento mais delicado de suas vidas, porque a cidade não separou, com a antecedência devida, o espaço mínimo que qualquer aglomerado humano deve a seus mortos. Logo Ipiaú, que tem assistido seu orçamento anual crescer significativamente, quando e  onde, de 2017 a 2024 passaram pelos cofres públicos municipais, cerca de R$ 1,24 bilhão (corrigido pelo IPCA) e nesse momento está passando outro bilhão até 2028.

Nas eleições a prefeito de Ipiaú, houve candidato(a) que comprovou de última hora, em papel, sua residência em Ipiaú. Isso pouco importou para os ipiauenses. OK! Mas o que não deveria ser deixado de lado, seria o compromisso dos candidatos, que ao morrerem, fossem obrigados a serem enterrados nas cidades que governaram. Será que os gestores da burocracia e políticos assinaríam esse compromisso?

Diante do argumento do atual diretor de fiscalização da PMI, de que o cemitério novo, tem muita pedra e área de inundação… A pergunta que fica é: Olhando para o passado próximo de Ipiaú, seria a pedra quem procura os doidos, ou do contrário? E quanto às áreas alagadiças, não seria o caso de buscar na justiça reparação aquém aprovou esse projeto, sem sondagem e drenagem?

O pires do outro lado da balança: a economia dos Festejos Juninos na Bahia

O contraste fica mais evidente quando se olha para o outro extremo do orçamento público. O painel de transparência do MP-BA, sobre contratações artísticas para os festejos juninos na Bahia, referente ao ano de 2026, mostra a dimensão da festa enquanto política pública: 410 municípios participantes, 4.836 caríssimas apresentações contratadas, 2.279 artistas pagos e um total de R$ 0,7 bilhão movimentados apenas em cachês – sem contar palco, som, iluminação, ornamentação, hospedagem e translado de artistas, uso da máquina pública… itens que, como se sabe, costumam superar o próprio valor do cachê em produções desse porte. Tudo contratado de forma ágil, (rapidinho – da noite para o amanhecer do dia) com dispensa de licitação… ao passo que se criam enormes obstáculos burocráticos para realização de obras públicas essenciais, são exatamente, enormes barreiras jurídicas construídas, que evidenciam o que verdadeiramente importa ao mortos-vivos da política nacional.

O detalhamento por município revela pobres cidades nordestinas destinando somas expressivas apenas a atrações artísticas: Feira de Santana, R$ 7,65 milhões; Camaçari, R$ 6,9 milhões; Iraquara, R$ 6,83 milhões; Itabuna, R$ 6,25 milhões; Vitória da Conquista, com 103 atrações contratadas, R$ 5,56 milhões. A própria Ipiaú deve aparecer nessa lista, (depois de atualizado o gasto com Nattan – e outros menores) com mais de R$ 6 milhões gastos somente em cachês em contratações artísticas para o São Pedro 2026 – um valor que, tomado isoladamente, já supera em muito o que costuma ser destinado, em boa parte dos municípios baianos, à manutenção ou ampliação de equipamentos de saúde e de serviços funerários.

Não se trata de negar o valor cultural, econômico e simbólico das festas juninas para o Nordeste – eventos que, em tese, gerariam renda, turismo, emprego temporário e reforçariam identidades regionais fortes o suficiente para serem, elas próprias, objeto legítimo de estudo antropológico. Pelo menos é este o argumento que suporta essa montanha de dinheiro destinado (contrastando com o privilégio dado a bandas forasteiras, sem nexo real com a cultura nordestina). No entanto, o ponto é outro (muito pior ainda): a comparação entre os dois investimentos – o que se gasta para “celebrar a vida” em junho e o que se deixa de investir para acolher a morte o ano inteiro – expõe uma hierarquia de prioridades que raramente é discutida abertamente pela administração pública.

Festa e morte, dois pilares do mesmo edifício simbólico da humanidade

Antropologicamente, festa e funeral não são opostos: são dois momentos do mesmo trabalho ritual pelo qual uma comunidade reafirma culturalmente quem ela foi, é e será. Os ritos funerários, como mostrou Arnold van Gennep, são ritos de passagem – e todo rito de passagem tem também sua dimensão cerimonial, de celebração da continuidade do grupo apesar da perda individual. Uma sociedade de mentalidade e valores saudáveis investe nos dois pólos: na alegria que renova os laços vivos e no cuidado que honra os laços que se encerram.

O problema não é necessariamente o São Pedro ter orçamento exorbitante. Aqui não se está fazendo juízo de valor ao que foi pago a esse, ou aquele artista. O problema é o cemitério continuar a não ter vagas por anos.

Quando um município consegue mobilizar dezenas de milhões de reais, ano após ano, para contratar atrações artísticas forasteiras do dito breganejo nacional, mas não consegue garantir área e infraestrutura condizente, suficientes para sepultar seus próprios mortos, o que está sendo revelado não é falta de recursos – é uma escolha estúpida, de onde e por quê colocar os recursos que existem (lembrando que os recurso da prefeitura, não é do prefeito e seus asseclas). E escolhas orçamentárias, em política pública, são sempre também declarações de valores dos seus deliberadores. O que chama a atenção é o papel “fiscalizador” dos vereadores (intermediadores partícipes do clientelismo sistêmico institucionalizado erroneamente). Só faltava agora, aparecer um edil da base, apresentando um projeto para multar quem morrer em Ipiaú, enquanto não houver vaga previamente aprovada, licenciada, atribuída, paga… Se tem uma oportunidade estatal que muitos políticos não costumam perder, é a de surfar e ganhar em cima da desgraça alheia. Em nossa era, tornou-se normal, criar um problema em prejuízo paroquial, e lucrar em cima da solução individual.

O que fica sob a terra e o que fica sobre o palco da política passageira?

Faz mais de dez mil anos que o ser humano ergue marcos sobre seus mortos antes de erguer teatros para seus vivos. Talvez seja hora de as prefeituras baianas – e não apenas Ipiaú – reler essa lição arqueológica elementar: uma cidade se mede tanto pela grandeza de suas festas quanto pelo respeito à dignidade da pessoa humana, com que trata quem já não pode mais participar delas, seja por quem estar impossibilitado, nos hospitais ou, nos cemitérios. O cachê de artista se paga com contrato com dispensa de licitação. Vaga de cemitério se paga com planejamento, gente competente a frente das áreas, não pendurados na folha de pagamento via barganha de votos legislativos – sobretudo da falta de planejamento, ao que tudo indica, ainda é o item mais caro, e o mais frequentemente ausente, no orçamento de muitos municípios brasileiros.

O argumento usado para contratar de “última hora” Nattan (São Pedro 2026) com soma que daria para reformar os dois cemitérios de Ipiaú, foi o de que teria sido atendimento a pedidos do povo… pois que rufem os tambores para ouvir a voz do povo, direto dos cemitérios, pedindo pelo Amor de Deus, gestores, vereadores, candidatos às eleições 2026, saibam: que há décadas está faltando vagas nos cemitérios de Ipiaú. Quem tiver ouvidos para ouvir, e ainda o mínimo de dignidade e vergonha na cara, que ouça.

Em meio a toda essa confusão, restou uma pergunta que poderá mudar toda perspectiva duma possível solução para o caso em tela, que é a proposta de incumbir ao Consórcio intermunicipal Rio das Contas, da construção, ou contratação em escala, dum crematório e disponibilizá-lo para toda as prefeituras associadas da região?

FONTE/CRÉDITOS: TV Jequié

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ELSON ANDRADE

Publicado por:

ELSON ANDRADE

Elson Andrade é arquiteto, urbanista, empresário desenvolvimentista, pós-graduado pelo Instituto de Economia da Unicamp e redator do Ipiaú Online

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