O Estado da Bahia, em que pese seu protagonismo na Educação nacional, seja com a concretização da primeira Faculdade de Medicina do Brasil, seja por personagens que influenciaram a política educacional em tempos e formas diferentes, como Anísio Teixeira, Rui Barbosa e tantos outros, foi um dos últimos Estados da federação a materializar seu primeiro curso de formação em Educação Física. Os esforços para tal feito na Bahia demarcam desde a década de 1930, quando alguns Baianos foram enviados para a escola de Educação Física do exército para qualificar-se e poder trabalhar nas escolas básicas baianas, esse movimento foi ampliado quando da constituição do Primeiro Curso de Educação Física (1939) vinculado a uma Universidade no Brasil, na ENEFD da Universidade do Brasil. Talvez, esse seja o marco de ampliação da formação da Educação Física nacional, pois a política de bolsas de estudos empregada pela instituição permitiu o ingresso de estudantes das mais variadas regiões do Brasil. Paralelamente a essa dinâmica, algumas tentativas frustradas de Criação de um Curso de Formação em Educação Física se sucederam na Bahia, em 1942 na interventoria de Landulfo Alves, em 1965 no governo de Lomanto Júnior, em 1969 no governo de Luiz Viana Filho e só em 1973 que o Estado ver materializado o intendo de criação de seu primeiro curso em Educação Física. Claro que vários personagens se empenharam, mas quatro merecem uma análise destacada, pela posição que ocuparam: o professor Alcyr Naidiro Ferraro, Professor Miranda, professor Fernando Chagas (BC), constituíram o (Trio Regina) e o Professor Georgeokoama.
É claro que existiram outros e outras, é claro que a história não começou ai, mas, também é claro que os seus esforços e ações institucionais produziram efeitos que nos faz enxergar hoje o tamanho do desafio que assumiram. Todos estudaram fora, alguns mais, outros menos passaram dificuldades no Rio de janeiro e retornaram para a Bahia com o propósito de propagar a formação adquirida, assim estiveram próximo dos movimentos junto com a APEFB (Associação dos professores de Educação Física da Bahia) quando da articulação da criação do Curso da UCSAL (Universidade Católica do Salvador).
O histórico sócio econômico do professor Alcyr Ferraro guarda uma identidade entre todos os baianos que juntos com ele buscaram se formar em Educação Física naquele período. Nos nossos registros encontramos apenas uma exceção, o Professor Paulo Matta: “Sua família, tradicional, possuía história no ramo agropecuário. Para ele haviam pensado um destino, a graduação num dos cursos superiores mais valorizados na época.”. Em suas palavras, disse: “Minha mãe era filha do principal fazendeiro de Ilhéus. [...] Um Matta só poderia ser um advogado, um médico ou um engenheiro”.
A descoberta pelo encanto pela Educação Física, esteve e em certa medida ainda está vinculada com acesso a práticas desportivas pregressas: Essa vivência sistemática com os esportes combinado com a carência de profissionais habilitados para o exercício da profissão na Bahia, patrocinaram um ambiente propício para o que podemos considerar de início da carreira profissional de muitos professores: Manuel Brasil de Freitas, Hamilton Heroclides Rocha, Josair Estrela Gonçalves , José e Raimundo Coelho e tantos outros e outras.
Devidamente formado em 1949, Alcyr Ferrrao, assimila aquilo que parecia ser um dos principais objetivos da ENEFD, qual seja: irradiar um paradigma de formação pelo País, com a mesma orientação teórica-metodológica. Esse cenário fez com que Alcyr Ferraro passasse a influenciar futuros professores que serviriam em breve tempo, para o projeto maior de concretizar da criação de uma Escola de Educação Física na Bahia.
Em 1967, no Governo de Antônio Lomanto Júnior, O conselho Estadual de Educação e Cultura baixou a resolução 30/67, criando a Escola de EF da Bahia, homologada pelo então governador. Todavia, a reforma constitucional de 1967 atingiu a Secretaria de Educação e Cultura, impedindo a implantação da escola. Com isso, o Governador do Estado baixou decreto retirando as providências para sua instalação. Em 1969, no Governo de Luiz Viana Filho, a partir do Plano Integral de Educação e Cultura, foi feito um diagnóstico do ensino superior na Bahia, que apontou possibilidades e necessidades de cursos superiores para o Estado. Com o cenário de inexistência de um curso de EF na Bahia, havia, a seu juízo, dificuldades para o trato com a disciplina no espaço escolar e também para o trabalho com a atividade física e o esporte no Estado. Certamente o envio de profissionais para se capacitarem fora do Estado da Bahia, embora importante no seu tempo histórico precisaria ser revertido e para isso necessitou de muita articulação e liderança.
Alcyr Ferraro se colocou nesse lugar de líder desse projeto, bateu em várias portas, dialogou com autoridades, envolveu colegas com perspectivas ideológicas diferentes e tudo mais, para ver materializado um curso de formação em Educação Física na Bahia.
Ao que parece a Associação dos Professores de Educação Física da Bahia, se constituiu no lócus de articulação para o intento de criação do curso de Educação Física na Bahia. O professor Georgeochoama relata que, assim que retornou para Bahia, teve a responsabilidade de liderar o processo de criação do primeiro curso superior de EF:
nós aqui nos idos de 1968,1969,1970, é... eu fui convidado pelo professor Alcyr Ferraro...para ser presidente da Associação dos professores de Educação Física [risos] então, sendo eleito pelos colegas, assumi a presidência da associação, no sentido de criar a Escola de Educação Física e..., concomitantemente montar cursos de aperfeiçoamento, atualização dos professores leigos (depoimento pessoal, 2007)
Essa atitude de Alcyr Ferrraro, mostra sua determinação para o objetivo traçado, uma vez que esse desprendimento e perspicácia contagiava a todos e transformava o intento em um projeto coletivo, agregando lógicas diferentes de formação e de sociedade. O outro depoimento de Georgeochoama, é revelador:
acabou a minha gestão, e o professor Alcyr não é? Eu passei para ele e digo olha, já que o Governador é Antônio Carlos Magalhães, é o novo governo, eu não sou afinado com esse governo [...] então eu acho bom você que é uma pessoa mais ligada a esse pessoal [...], assuma a presidência e desenvolva os procedimentos para que agente possa ter a Escola de Educação Física (Depoimento pessoal, 2007).13
E foi notadamente, sob o auspício da terceira gestão (biênio 1971/1973), sob a presidência do professor Alcyr Ferraro, que a Bahia viu concretizado o sonho de materializar o seu primeiro Curso de Educação Física. O percurso foi longo, vai desde a negativa do Reitor Lafaiete Pondé da Universidade Federal da Bahia, não mostrando receptividade nem interesse pela causa, a visita de autoridades que assimilasse a ideia da necessidade apresentada e a exploração da temática em órgão de imprensa.
Com o cenário construído, os professores Alcyr Ferraro, Neuton Miranda e Fernando Chagas procuraram uma forma de sensibilizar o então governador do Estado, Antônio Carlos Magalhães, quando de uma visita sua ao Colégio Estadual da Bahia (Central). “Nós criamos um convênio com a UCSAL e o Estado, porque Antônio Carlos Magalhães naquela época não quis saber de Universidade: “Não, Universidade é no interior”, naquela época ele era Governador, “Mas eu não me oponho.” “O Senhor faz o convênio?” Ele: “Faço o convênio”, e fez, o convênio assinado.
Foi só em 27 de dezembro de 1972, após reunião do Conselho Universitário, que o curso de EF da UCSAL foi aprovado, com o início de seu funcionamento previsto para 1973. A coordenação do curso ficou a cargo essencialmente do professor Alcyr Ferraro e de outros professores que tiveram formação na ENEFD. Destacam-se os professores Neuton Miranda e Fernando Chagas (BC).
Neste sentido o ano de 2023 é para a Educação Física baiana muito especial. Nele se celebram os cinquenta anos de fundação daquele que foi o seu primeiro Curso Superior de formação na área, o da Universidade Católica do Salvador (UCSAL). Poderia ser apenas uma data comemorada internamente pela UCSAL, mas acaba que é, na Bahia, um momento de celebração para o campo da Educação Física como um todo, uma efeméride que deve ser tomada como um marco institucional para esta área de conhecimento no estado, haja vista ter sido este o curso que iniciou e que durante longo tempo foi único na Bahia.