Ah, o velho jogo de cartas marcadas da política brasileira. Não importa a cidade, o estado ou a esfera de governo, a peça se repete como uma tragédia anunciada, só que sem catarse. O roteiro é simples: o político A se elege com o apoio do político B da cidade vizinha. O que acontece depois? Troca-se um cargo aqui, ajeita-se uma vaguinha acolá, e pronto! O contribuinte paga a conta desse verdadeiro baile de máscaras que só engana quem quer ser enganado.
Quando a negociata acontece nos bastidores, já é um soco no estômago da moralidade. Mas quando esse tipo de prática se institucionaliza, virando regra do jogo, é um tapa na cara dos eleitores, que assistem a esse teatro enquanto tentam pagar boletos e sobreviver ao caos do país. E o mais nojento? Eles nem tentam disfarçar. Empregam filhos, sobrinhos, primos, esposas, amantes, o cachorro e, se possível, até o periquito. Tudo com dinheiro público, claro. Afinal, governar virou uma extensão da árvore genealógica.
O nome técnico desse escárnio é nepotismo, e, pasme, é proibido. A Constituição Federal de 1988 já previa o princípio da impessoalidade (art. 37), que deveria impedir que cargos públicos fossem loteados como se fossem parte de um espólio de herança. Mas como o brasileiro é criativo, o Supremo Tribunal Federal teve que desenhar, criando a Súmula Vinculante nº 13, que proíbe expressamente a nomeação de parentes para cargos comissionados. Um avanço? Talvez, mas os ratos sempre encontram um novo buraco. Se não podem nomear o filho, nomeiam o filho do amigo, que retribui a gentileza em outra cidade. Assim, driblam a lei na maior cara dura. E a fiscalização? Bem, essa geralmente faz vista grossa, porque todo mundo tem um rabo preso em algum canto.
E não para por aí. Quando não são os parentes, são os cabos eleitorais transformados em servidores de repartições públicas. O critério? O mais fiel, o que mais carregou bandeira, o que mais mentiu na campanha. O que se vê é a administração pública inchada de incompetentes, lotada de gente que sequer sabe o que faz ali, e nem precisa saber. O salário pinga todo mês, o café está sempre quentinho, e o expediente, se existir, é mera formalidade.
O resultado? Serviços públicos sucateados, corrupção institucionalizada e uma população que, entre indignação e resignação, se acostumou a viver sob o domínio dos coronéis modernos, que agora não vestem mais chapéus de couro, mas ternos mal cortados e discursos vazios. E eles ainda se dão o luxo de posar de moralistas, falando em transparência, ética e compromisso com o povo – enquanto distribuem os cargos como se fossem pedaços de bolo de aniversário.
A pergunta que não quer calar: até quando? Até quando vamos assistir a esse circo sem reação? Até quando a máquina pública será trampolim de enriquecimento ilícito e manutenção de poder? Até quando vamos engolir esse teatro, fingindo que não entendemos que o jogo é sujo, mas poderia ser diferente?
O que deveria ser a exceção virou a regra. E o que deveria ser a regra, competência, meritocracia, respeito ao dinheiro público, virou piada de mau gosto. Porque, no fim das contas, eles tripudiam da nossa cara, enquanto gozam de seus privilégios, rindo da nossa ingenuidade. E nós? Seguimos pagando a conta dessa farra, esperando, quem sabe um dia, que o Brasil leve a sério a própria Constituição
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