Desde o Arraiá do Sertão, realizado na gestão de Luiz Amaral, em 1989, a festa de São João de Jequié vem perdendo espaço para a modernidade.
Por isso me veio à lembrança o imortal Moraes Moreira com a música “Lá vem o Brasil descendo a ladeira”, que se enquadra muito bem nesse momento presente, “Lá vem o São João descendo a ladeira”.
Em Jequié, neste ano, o São João atinge o auge da sua descaracterização quando transforma a praça da bandeira, onde era para ser visto “subindo era aquele poeirão", um morteiro de luzes, drones, ice e muito techno mix.
Não que o Alok não seja nada admirável, pelo contrário, é um espetáculo sua apresentação. Mas, em pleno São João, é um tapa na cara do baião, do xaxado, do forró Pé de Serra.
E o Gustavo? Genial. Mas não dá para dizer que “o forró tava gostoso, era forró de cabo a rabo". Nem tão pouco a alegria e a satisfação atingem o clímax ao ponto de reconhecer: "Vixe, como eu tô feliz"!.
Que seja careta, antiquado, ultrapassado o que afirmo. Mas, em meio a esse devaneio insano de sepultar as expressões artísticas e as marcas culturais que deram origem ao São João, a maior contemplação da essência nordestina, que achem o que quiser. Não me importo.
Me importo com as matas que são queimadas e esquecidas de suas merecidas homenagens e conscientização. Me importo com o pavio do candeeiro coberto pelas teias de aranha. Me importo pelas casas de taipa, de pau a pique, que meus olhos não contemplam mais.
Me importo pela ausência dos vestidos coloridos, rodados, charmosos e perfumados com o suor da dança e de fumaça da fogueira, que hoje foram substituídos pelos inexplicáveis shorts curtos e seios à vista, como se o melhor a se apresentar fosse somente isso.
Me importo com o milho verde, a canjica, o amendoim, o licor que foi substituído pelos hot-dogs, Prime Burg e outros estimulantes de infarto do miocárdio. Me importo sim, por meus ouvidos não poderem contemplar o batido da varinha do zabumba, do trinado do triângulo, o vai e vem sonoro e maestral do fole.
Ver o São João se definhando, descendo ao túmulo, perdendo sua história, é como perder um ente querido de tamanha importância, que nos ensinou tantas coisas, nos deu tanta alegria, nos acolheu de sabedoria, de lições nobres sobre as nossas origens, nossos hábitos, nossos tratos.
Hoje a gente pode perceber o tamanho da nossa ignorância e pequenez quando aceitamos o acinte de várias “artoridade” que tentaram ultrajar, desdenhar e censurar o “São João Xangô Menino”, proposto pelo nosso especial amigo, Bené Sena, quando sua inspiração altivou e presenteou a cultura local com o resgate da fe e a manutenção de coisas tão ricas que a ignorância humana não foi capaz de enxergar a sua grandeza.
Por fim, é o chapéu de palha teso pelo sol, manchado pelo suor, que cai ao chão, acompanhado pela lágrima que escorre pelo rosto, razão da tristeza pelo meu São João que se vai embora, ladeira abaixo, descendo a ladeira.
Assim como as baleias, em poucos anos, seus netos vão lhe perguntar pelo São João, que aquecia o coração, “como nos velhos livros, ou nos filmes dos arquivos, dos programas vespertinos de televisão.” – Roberto Carlos - As Baleias.
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